sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Consciência branca


As datas redondas, as efemérides, a rigor, não servem para nada a não ser lançar foco sobre as coisas que deixamos escapar no dia-a-dia. O tempo, por exemplo, em seu galope de segundos. Só nos damos conta de sua passagem no fechamento de ciclos como aniversários, virada de ano, décadas e por aí vai.

Assim é (ou deveria ser) com o dia 20 de novembro, que, por decreto, virou o Dia da Consciência Negra, com status de ponto facultativo nos municípios.

Ajustei minhas lentes para a candente questão racial no Brasil e o que vejo? Trabalho num setor, esse o da comunicação do marketing (promoção, propaganda, design), absolutamente branco.


Em 30 anos de profissão, conheci dois diretores de arte e duas diretoras de atendimento negros. Mesmo considerando que o apartheid não seja racial, mas social, como acontece na educação superior, esse é um dado que mereceria, no mínimo, uma reflexão.


Ou admitimos que os negros geneticamente são incapazes de planejar, desenvolver estratégias e criar soluções de comunicação e nos alinhamos com o que de mais lamentável as civilizações produziram até hoje, ou admitimos que algum tipo de discriminação, mesmo que não premeditada ou consciente, ocorre.


Costumo dizer que a escravidão é o nosso holocausto. Nos envergonhamos tanto dela que simplesmente a ignoramos em toda a sua extensão e tragédia. Foram três séculos de ignomínia (alguém já se deu conta do que significam 300 anos na cultura de uma civilização?). Durante boa parte desse período, negros, assim como índios, eram considerados seres “sem alma”, como os animais. E isso, por si só, formou um conceito de não-humanidade a partir do qual se estabeleceu toda uma relação de hierarquia antropológica que colocou, a nós brancos, ao menos um degrau acima dos outrora desalmados.


A vergonha que nos leva a não enfrentar de vez essa questão é tamanha que, até hoje, não tenho conhecimento de obra literária que enfoque a questão do negro sem mostrar, em paralelo, os movimentos abolicionistas. A impressão que fica é de que a escravidão foi uma coisa de brancos maus. Em absoluto. A escravidão foi, durante muito tempo, algo social e culturalmente aceito como normal até mesmo pelos negros. Esse, outro tabu, pois a mesma literatura que procura minimizar a gravidade da escravidão como um desvio de conduta de uma civilização, forja uma consciência de liberdade, entre os negros, como se todos os escravos tivessem sido discípulos de Zumbi.


Os movimentos abolicionistas surgem e ganham força quando a escravidão já está em seus estertores, caindo de podre. Da mesma forma, os quilombos jamais constituíram a base de um “movimento nacional pela libertação dos negros”.


No auge da escravidão, a população negra chegou a ser superior à branca, motivando até uma pioneira campanha de eugenia na qual Portugal passou a exportar mulheres brancas para evitar o enegrecimento da raça. Ou seja, dificilmente uma revolta conseguiria ser controlada, como aconteceu em alguns países do Caribe nos quais a liberdade foi conquistada não pela pena de uma princesa, mas no braço.


Na época esplendorosa da exploração do ouro em Minas Gerais, 23% dos donos de escravos eram negros que compraram sua alforria. Negros maus, então? Não os vejo assim, mas como indivíduos que, com a aquisição da liberdade, tornavam-se cidadãos e, de brinde, ganhavam seus valores.

A ausência de negros em nossa profissão, portanto, se insere num contexto muito mais amplo e complexo, no qual não cabe nenhuma solução moral, à la estabelecimento de cotas, ou mesmo econômica, de promoção social.


P.S. – Terminado este post fui a um churrasco na casa de um amigo, por conta do feriado. Sua empregada, negra, nos servia: não folgou no Dia das Consciência Negra.

2 comentários:

RODRIGO DE AQUINO disse...

Com o perdão da palavra, mas ao terminar de ler seu post, só tive uma expressão: CARALHO.

Marinho disse...

O que me conforta, Rodrigo, é saber que não estou sozinho em algumas constatações.