quinta-feira, 17 de julho de 2008

Emergência da complexidade

Quando houve a reurbanização do Vale do Anhangabaú, aqui em São Paulo, um dos projetos apresentados na concorrência, embora não vencedor, tinha uma proposta bastante criativa que me chamou a atenção.

Em vez de apresentar uma obra fechada, com caminhos, jardins e demais equipamentos urbanos definidos, esse projeto simplesmente propunha não se fazer nada. Toda a área da futura praça ficaria durante um período sem benfeitoria alguma, apenas o chão de terra batida. Por esse espaço sem nenhuma demarcação, as pessoas fariam seus caminhos espontaneamente. Ao final de um tempo, as trilhas que ficassem desenhadas no chão representariam os caminhos “naturais”, aqueles que as pessoas percorrem obedecendo a um comando de orientação interno, não racional, tão instintivo quanto o “GPS” orgânico que as aves migratórias possuem. Aí era só projetar a praça a partir desses trajetos desenhados pela população. Dessa forma, o projeto da praça não determinaria a trajetória das pessoas em trânsito, mas sim o contrário.

Muito tempo depois, já mais recentemente, acabei cruzando com duas informações que, à primeira vista, não tinham nada a ver com a proposta arquitetônica para o Vale do Anhangabaú, mas que de certa forma a explicavam cientificamente, algo que, acredito, foi pura sacada.

Há um setor das disciplinas que estudam o comportamento humano aplicando os princípios de um fenômeno da química, conhecido como “emergência da complexidade” (emergência no sentido de emergir, não confundir com urgência), para entender certos processos coletivos experimentados pelo homem. Esse princípio busca explicar as estruturas químicas complexas que resultam de elementos extremamente simples. Um exemplo é a formação da vida na Terra a partir da cominação de moléculas de carbono com elementos não-orgânicos. No âmbito do comportamento, a emergência da complexidade se aplicaria na análise de organizações humanas complexas que se realizam espontaneamente. O exemplo mais evidente é o comportamento das grandes torcidas de futebol. A “ola”, uma disciplinada coreografia de milhares de pessoas, é feita sem ensaio e sem maestro. Por outro lado, há uma certa auto-ordenação entre os torcedores que permite que um contingente de segurança que representa 2% da população de um estádio controle os outros 98% com relativa facilidade (os quebra-quebras são exceções e, assim mesmo, controláveis).

Outro campo de estudo é o senso de organização dos enxames observados em animais que vivem em grandes colônias. Ele, o senso, permite que essas sociedades desenvolvam rotinas de logística não-lineares com eficiência muito maior do que as de formulação lógica como conhecemos. Até onde eu sei, há pelo menos uma empresa de software, nos Estados Unidos, que desenvolveu um aplicativo para logística de entregas e reabastecimento para uma empresa de distribuição de gás baseado nos princípios que as abelhas utilizam para distribuir sua “frota” de coletores de pólen que difere muito dos métodos que utilizamos para executar tarefas semelhantes.

Todos esses fatos ocorrendo em áreas tão diversas e sem conexão entre si fazem pensar se não seria o caso de ensaiarmos como aplicar esses (e outros) conceitos em nosso trabalho. Que resultados poderemos obter considerando dinâmicas como a emergência da complexidade e a organização dos enxames no desenho de ações promocionais? Que novas frentes da lingüística, da neurologia, da antropologia e tantas outras áreas do conhecimento humano estão se abrindo e em breve soprarão o pó de um século de pensamento sistematizado que nos guia?

Não tenho respostas, mas o questionar me anima.

5 comentários:

adams disse...

Este post é simplesmente espetacular. Escreve muito esse Marinho!

Panhoca; Bruno disse...

o grande Burle Marx já previa isso em seus projetos com grandes gramados.
Deixe as pressoas pisarem na grama e só depois que os caminhos estiverem marcados, faremos o calçamento.

Flávio disse...

Excelente post!!!
Quando estudei arquitetura, nas aulas que tínhamos de paisagismo, era um dos principais ensinamentos práticos (e não acadêmicos) que recebíamos de alguns professores. Eles realmente nos encorajavam a deixar que o povo caminhe (ou ouvir as necessidades do consumidor) para que se possa atendê-lo de modo conveniente e relevante, sem "travas".

Bruno Scartozzoni disse...

Marinho, estava com saudades dos seus posts brilhantes!!

Gustavo Gontijo disse...

Excelente!
E acredito que o papel do planejamento seja justamente fazer com que as pessoas determinem (ou pelo menos influenciem) a trajetória das marcas.