sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Longe daqui, aqui mesmo



O desprezo de Mikael pelos jornalistas econômicos se devia a algo tão elementar, a seus olhos, como a moral. Para ele era uma equação simples. Um diretor de banco que perde centenas de milhões em especulações tresloucadas não deveria permanecer no cargo. Um empresário que monta firmas fictícias para seus negócios pessoais devia ser preso. Um proprietário de imóveis que obriga jovens a pagar, sem nota, o aluguel de um quarto com banheiro no quintal devia ser pendurado pelos pés no pelourinho.

Mikael Blomkvist acreditava que a missão do jornalista econômico era investigar e desmascarar os tubarões financeiros capazes de provocar crises de juros e de especular com o dinheiro do pequeno poupador. Acreditava que sua verdadeira missão jornalística era investigar os donos de empresa com o mesmo zelo implacável que os jornalistas políticos vigiam o menor passo em falso dos ministros e parlamentares. Jamais ocorreria a um jornalista político transformar em ícone um chefe de partido, e Mikael tinha dificuldade em entender por que tantos jornalistas econômicos, dos mais importantes veículos do pais, estavam prontos a elevar medíocres à categoria de vedetes do showbiz.

O texto acima reproduz um trecho do romance “Os homens que não amavam as mulheres”, de Stieg Larsson (ed. Cia. da Letras). A obra, parte da trilogia Millenium, é de 2004 e seu cenário é a Suécia, nação a cujo grau de civilização aspiramos chegar um dia.

A história é ficcional mas foi escrita por um combativo jornalista econômico, que entendia em profundidade do que estava falando, e o panorama em que ela se desenvolve é muito real. Até parece a reconstituição histórica dos bastidores que levaram o mundo à atual crise. Em alguns aspectos, parece que estamos tratando do Brasil o que comprova que, pelo menos em termos de falcatruas, poderíamos engordar o G7. Longe daqui, aqui mesmo. Fica a observação para uma reflexão de fim de semana...

2 comentários:

Rodrigo Alexandre Coelho disse...

Apenas um completo leigo pensando alto:
... como é possível que toda a economia mundial estivesse baseada em mentiras?! em valores super estimados?! em expectativas de ganho descoladas da realidade?! E o que querem fazer agora? Fazer tudo voltar a ser como era antes? Querem reerguer a mentira, construir um castelo alicerçado em lama outra vez?
Talvez seja mais divertido viver na mentira... mas será assim para todo mundo?

Marinho disse...

Rodrigo, eu também estou confuso com essa crise e, por mais que tente me informar, mais desorientado fico.Também me pergunto sei o rei sempre esteve nu e era a mídia e o sistema que afirmavam sua veste ser deslumbrante. Não sei...

Marinho