terça-feira, 8 de abril de 2008

Os Hábitos de Consumo do Nosso Consumidor

Esse post não é bonito. Não é nobre. Não é socialmente responsável. Esse é um post baseado puramente em interesses financeiros frios e calculistas, escusos, horrorosos e capitalistas que... Pausa. Pó pará. Como você vê, já adiantei alguns dos possíveis comentários e críticas a este post. Sim, mesmo antes de começar. Então nem perca tempo. E - isso é importante - aguarde uns 5 jobs antes de meter pau, ok? Combinado? Se ele não for útil, você volta aqui e manda ver.

É que eu estava lendo no Blog do Marinho (não o nosso, o da Brandworks / Blue Bus) que não é à toa que a TV segue firme e forte e, apesar do Godzilla ter levado tiros aqui e ali, continua arrastando tudo pelo caminho. Uma pesquisa do Ipsos traz os seguintes números:

31% dos brasileiros leram um livro durante todo o ano passado.
20% dos brasileiros foram a um show de música em 2007.
6% assistiram a uma peça de teatro.

Isso considerando todas as classes sociais de modo à média ser equilibrada. Detalhe: a maioria das pessoas declarou que não pretende mudar de atitude esse ano.

Aí observei que 24% dos entrevistados das classes D e E declararam que não foram ao cinema em 2007 porque não há opções perto de onde moram. Que o consumo per capita de livros no Brasil é 1,8/ano. E que, obviamente, essa é a parte que todos consideram na hora de fazer um job e propor "coisas socialmente responsáveis", por assim dizer.

Exemplo: promoção de uma financeira. Público, portanto, da classe baixa, em dificuldade total de grana. Prêmio sugerido: bolsa de estudos.

A intenção é nobre. O resultado? Tocha!

No afã de ajudar e/ou parecer socialmente responsável, muita gente acaba amarrando o cachorro com lingüiça na hora de resolver um job. Gente: vai dar errado.

Quer saber por quê essa premiação do exemplo é tiro n'água? Eu te falo: porque não é isso que o público-alvo quer. Ponto. Enter. Perdeu a concorrência.

Me diga: o problema do baixo índice de leitura do brasileiro é a dificuldade de acesso aos livros? A carência de bibliotecas? O preço dos livros?

Respondo: Também. E "também" é diferente de "sim". A dificuldade de acesso contribui para a perpetuação da falta de hábito de consumo. Um hábito de consumo que existe e que não caberá a mim ou a você, em um job, resolver.

Não se esqueça que, em um país do tamanho do nosso, 68% da população é de analfabetos funcionais. Muitos com diploma, vale acrescentar. Então, de que adianta dar um livro na mão de alguém que não é capaz de entender o que está escrito, seja o nível de leitura que for?

Estou dizendo que isso não é problema meu ou seu e que, portanto, se não vende, não proponha? Nã nã ni nã não. Estou dizendo que uma coisa é sugerir uma ação/evento que pareça socialmente responsável e outra é um que realmente seja. Muito cuidado. Muito mesmo.

Ache o problema: o objetivo da empresa/produto/marca é oferecer algo que seu público deseje para vender ou é contribuir diretamente para o incremento do índice de leitura, por exemplo, melhorando a educação, sabendo que isso vai reverter em resultados a looooongo, longo prazo?

O que estou dizendo é que não adianta propor a fundação de uma instituição de caridade se o cliente só quer desovar estoque.

Estou dizendo que não adianta querer fazer feira de livro na Caravana Coca-Cola, por exemplo. A Caravana Coca-Cola é uma grande sacada e dá resultado positivo para a imagem da marca porque leva entretenimento para as classes D e E, que mais sofrem pela falta de acesso. Mas é um entretenimento de fácil absorção. Atividades neurônio-free. Sim, é duro, é cruel, é feio, mas, sorry, that's business. Não adianta eu sair promovendo o book crossing nas favelas. Isso não ajuda. Nem à cultura e nem às vendas.

Sem acesso aqui, sem hábito de consumo ali, sem cinema, livro, teatro, shows e exposições de arte, o brasileiro médio tem a TV como fonte de informação e diversão. Não é à toa que a TV segue forte e também não é à toa que ela segue cada vez mais rasa culturalmente. É isso que vende.

Enfie o pé no capitalismo. Largue os pudores. É só manter as raízes, mas trocar algumas folhas. É preciso. Seu trabalho é esse. Vender.

Não, não exagere. Eu não disse "se vender". Tudo tem sua hora e lugar. Ache o problema DO JOB e ache a solução PARA O JOB. A solução do problema DO BRASIL é outro post. Em outro blog.

Aqui, mais dados sobre os hábitos de consumo culturais do brasileiro.

2 comentários:

Marinho disse...

Várias vezes observei que ações promocionais não têm caráter cultural nem quando é "concurso cultural". O mesmo se estende para o social. A comunicação do marketing funciona como um espelho convexo que capta o que está espalhado na sociedade, concentra e devolve potencializado. E só.Fica a meaxima do Velho Palhaço como imortalizado por Gil na canção Aquele Abraço: "Vocês querem bacalhau?" E voa bacalhau na platéia...

Bruno Scartozzoni disse...

Arrasou Robi!