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quinta-feira, 9 de abril de 2009

A maçã que mordemos




Algumas, raras marcas, trabalham tão bem a questão do pertencimento que conseguem transformar seus consumidores em tribo. É o caso, in extremis, da Apple. Seu poder é tamanho que as embalagens dos produtos Apple trazem adesivos com a icônica maçã mordida, presumindo, acertadamente, que o consumidor irá colocá-los em seu carro, em sua janela, como o sinal de identificação de uma seita.

Do ponto de vista do marketing, a Apple é uma aberração. Insistir num sistema fechado quando essa solução fracassou em outras experiências (vide Odissey x Atari, Beta x VHS) é apenas um dos exemplos. O alto custo de seus produtos, os problemas de (in)compatibilidade com a plataforma-padrão (Microsoft) são alguns dos outros problemas que deveriam compor uma fórmula de fracasso, mas acabaram reforçando ainda mais essa coisa de ser diferente.

Outro ponto a se notar é a opção por um design absolutamente despojado, limpo, minimalista. Nenhum botãozinho, nenhuma luzinha, nenhuma reentrância, nenhum friso. Somente o necessário e, às vezes, menos que isso, como no célebre iMac bolinha, que para ser restartado precisava ser cutucado por um simplório clipe de papel, por não ter botão para essa função.

A mesma concepção asséptica, de forma coerente, se estende ao design das embalagens e à comunicação gráfica. Tão clean que mais parecem de perfumes sofisticados, em nada lembrando o padrão tecno-jovem-moderno-hype que torna homogênea a comunicação dos produtos tecnológicos.

Ao contrário da maçã bíblica, que, mordida, expulsou a humanidade do Éden, essa nos abriu a porta para um paraíso no qual a relação consumidor-marca vai muito além da satisfação pela performance do produto.

Conjeturo: é possível planejar marcas para serem Apples na vida?

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

apropriação de marca

Vamos esquecer momentaneamente a piada politicamente incorreta, do tipo cuja distribuição é bastante potencializada quando juntamos o fato de todo mundo adorar receber esse tipo de material e a internet simplesmente existir.


O que mais deve chamar a atenção de um planejador nessa brincadeira? Na minha opinião são as marcas que aparecem ali nos papéis de "patrocinadoras" e "apoiadoras".

Duvido que alguma delas tenha autorizada a brincadeira, mas todas acabaram entrando, para o e bem e para o mal, na dança do que vem sendo chamado como "apropriação da marca pelo consumidor".

Em outras palavras, de repente a marca deixou de ser controlada pelo gerente, diretor ou seja lá quem for, e passou a ser um mero joguete nas mãos das pessoas, as vezes consumidores dispostos a defendê-las, as vezes inimigos dispostos a destruí-las.

No caso, analisando mais friamente, me parece que o autor da brincadeira (cuja mentalidade reflete um segmento da sociedade) demonstra um desejo de que algumas marcas com quem ele aparentemente se relaciona emprestem sua credibilidade para apoiar uma ação de segregação social.

É verdade que se isso realmente acontecesse essas marcas provavelmente teriam mais prejuízos do que ganhos, mas agora vamos imaginar que de repente alguém faça coisa semelhante só que com uma ação positiva, tipo uma campanha com mote genuinamente social ou ambiental.

Então de repente o gerente da marca se depara com a expressão de um desejo para que o objeto de seu trabalho apóie de alguma forma uma determinada coisa.

O que o gerente de marca deve fazer? Interpretar isso como um sinal dos deuses totalmente aleatório ou ficar atento para o que as pessoas estão fazendo com a marca dele?

Nesse cenário o papel do planejador também é ficar atento, monitorar e demonstrar esses movimentos para o cliente, e sugerir ações que possam potencializar (ou mitigar) essas brincadeiras.

E trabalhar com marcas, de repente, ficou ao mesmo tempo mais fácil e mais difícil, mais divertido e mais preocupante.